
Foto: Moisés Bruno
De janeiro a junho deste ano, o HPM realizou 14 captações
Uma corrente de emoção e solidariedade marcou os corredores do Hospital Público Municipal (HPM) de Macaé nesta quinta-feira (10). No Setembro Verde, mês de conscientização sobre a doação de órgãos, as equipes médicas realizaram um procedimento de captação múltipla de coração, fígado, rins, córneas e ossos que devolverão a esperança a pacientes na fila de transplantes. O doador desses órgãos foi o servidor público municipal Lucas Nunes, de 40 anos, técnico em radiologia do Pronto-Socorro Municipal, no Bairro Imbetiba. Vítima de uma colisão frontal de moto no dia 29 de agosto, Lucas teve a morte encefálica confirmada na quarta (9). Em um gesto de amor ao próximo, sua família honrou seu desejo em vida e autorizou a doação.
O diagnóstico definitivo de morte cerebral foi comunicado exatamente no dia do aniversário da única irmã de Lucas, Lidiane Nunes Monteiro Novaes. Extremamente abalada, a mãe do servidor, dona Lívia, passou mal e precisou ser internada em observação na própria unidade assim que o filho foi levado para a captação no centro cirúrgico. Natural de Nova Friburgo, Lucas morava em Macaé há cinco anos, era divorciado e deixa uma filha de 11 anos.
Mesmo diante da dor do luto, a empatia falou mais alto. "A doação significa amor. Saber que o meu irmão revive em outras pessoas é o que nos conforta neste momento da partida dele, ainda mais no mês de doação de órgãos. Queremos que este nosso gesto, que era a vontade do Lucas, seja um incentivo para que outras famílias também doem e salvem outras vidas", desabafou Lidiane. A fé moveu a família até o último segundo: no caminho para o centro cirúrgico, Lidiane beijou o irmão na maca e chorou: "Seu cérebro pode enviar novamente os comandos ao seu coração. Eu creio. Creia nisto". Apenas dez minutos depois, veio a confirmação técnica de que o coração já estava sendo retirado, dando início a uma corrida contra o tempo.
Logística pela vida e eficiência local
O coração — órgão que exige extrema rapidez e foi o primeiro captado no HPM em 2026 — além do fígado, rins, córneas e ossos foram transportados de helicóptero para salvar receptores no estado. Por motivos de segurança e sigilo, as identidades e as cidades dos pacientes que receberam os órgãos não foram divulgadas.
A enfermeira coordenadora da equipe Doação de Órgãos para Transplante (e-DOT), Waneska Madeira, ressaltou emocionada que os receptores já aguardavam nos hospitais de destino. Ela detalhou o alto índice de eficiência de Macaé: de janeiro a junho deste ano, o HPM realizou 14 captações, atingindo uma taxa de aceitação de casos viáveis de 55,5%, índice bem superior à média do Estado do Rio de Janeiro, que é de 33%.
Humanização no momento da dor
Muito além do protocolo técnico, o acolhimento humano fez toda a diferença para os familiares. A irmã de Lucas fez questão de elogiar a sensibilidade da enfermeira Waneska e do médico Paulo Fernando, além dos demais membros de toda a equipe desde a recepção, ela disse.
"Eles choraram abraçados com a nossa mãe e comigo. Este é o maior valor de uma equipe porque tem humanidade, empatia com a vida do próximo. Deus colocou os profissionais certos no nosso caminho neste momento de extrema dor", agradeceu Lidiane.